O que o fenômeno El Niño representa para a produção de grãos do Brasil?



O El Niño de 2026-2027 não é um evento qualquer. As projeções indicam que ele pode ser o mais intenso desde 1950, com 95% de probabilidade de atingir intensidade "muito forte" no último trimestre do ano e persistência até pelo menos o primeiro trimestre de 2027 . Para a produção brasileira de grãos, isso significa a convivência simultânea com dois extremos climáticos: chuvas acima da média no Sul e seca severa no centro-norte do país. O resultado, no agregado, é uma safra com desempenho desigual, onde perdas em algumas regiões podem não ser totalmente compensadas por ganhos em outras.

A soja, carro-chefe do agronegócio nacional, ilustra bem essa assimetria. A S&P Global Energy CERA estima a produção brasileira em 177 milhões de toneladas para o ciclo 2026-27, queda de 2,7% em relação ao ano anterior . O efeito nacional, no entanto, esconde movimentos regionais opostos. No Rio Grande do Sul, o aumento das chuvas tende a favorecer a produtividade, compensando em parte as perdas esperadas no Matopiba, especialmente no Piauí e no Maranhão, onde a irregularidade hídrica deve limitar o potencial produtivo . O saldo, para o produtor, é uma equação que depende fundamentalmente da localização da lavoura e da capacidade do solo de reter umidade nos períodos de estiagem.

O milho enfrenta um cenário mais preocupante. Diferente da soja, os impactos negativos se distribuem de forma mais generalizada pelo território nacional, sem o mesmo grau de compensação regional . A maior vulnerabilidade está na segunda safra, que responde pela maior parte da produção brasileira do cereal e coincide justamente com o período de maior intensificação do fenômeno . O calor excessivo e a distribuição irregular das chuvas no Centro-Oeste, combinados com a redução das precipitações no Matopiba, tendem a reduzir a produtividade e a disponibilidade de grãos para exportação. A cadeia do etanol de milho, em expansão em Mato Grosso, também sente o efeito, com possível encarecimento da matéria-prima.

O arroz é a cultura com a resposta mais direta ao El Niño. O efeito é negativo no agregado nacional, com destaque para o Rio Grande do Sul, principal estado produtor . As projeções atuais são compatíveis com impactos adversos semelhantes aos observados em 1998 e 2016, anos de El Niño intenso. O excesso de chuva no Sul pode dificultar o plantio e a colheita, enquanto o calor elevado nas demais regiões compromete o desenvolvimento da cultura. Para um país que já enfrenta desafios de abastecimento interno de arroz, o cenário exige atenção redobrada.

O trigo, cultura de inverno no Sul, está no centro da zona de risco. A área plantada no Brasil caiu para o menor nível desde 2020, e a produção estimada de 5,8 milhões de toneladas representa recuo de 26% frente ao ciclo anterior . As lavouras do Paraná apresentam bom potencial, mas no Rio Grande do Sul a elevada umidade aumenta a pressão de doenças fúngicas. Uma intensificação do El Niño durante o enchimento de grãos e a colheita pode comprometer a qualidade do produto e ampliar as perdas. O trigo brasileiro, já dependente de importações, pode ver essa dependência aumentar.

O café e a laranja também figuram entre as culturas vulneráveis. Estudo da Fundação Getulio Vargas estima que, em um cenário de El Niño muito forte, a produção dessas culturas pode sofrer quedas de 7% a 10% . No café, o sinal mais claro de ganho está associado à La Niña, não ao El Niño. Isso significa que o período atual não favorece a recuperação dos cafezais, especialmente em Minas Gerais e no Espírito Santo, onde o calor e a restrição hídrica podem afetar a florada e o desenvolvimento dos frutos.

O que emerge desse quadro não é uma quebra generalizada, mas uma safra de contrastes. O produtor que conseguir ler corretamente os sinais climáticos e ajustar o manejo — escalonando o plantio, escolhendo cultivares mais adaptadas e utilizando o Zoneamento Agrícola de Risco Climático — terá mais chances de atravessar o período com perdas menores . A variável climática, contudo, não atua sozinha. A capacidade de armazenamento, a logística de escoamento e a disponibilidade de crédito para custeio também determinam quem consegue absorver o impacto e quem sucumbe a ele.

Para o mercado, a consequência mais provável é volatilidade. A oferta menor de soja e milho no Brasil, combinada com a redução da produção nos Estados Unidos e na Austrália, tende a sustentar os preços internacionais dos grãos . Internamente, a pressão sobre os custos de alimentação animal pode se refletir nos preços de carnes e ovos, adicionando um componente de risco inflacionário em um momento em que o Banco Central já enfrenta dificuldades para convergir a inflação para a meta. O El Niño, que começou como um fenômeno climático, termina como uma variável econômica de peso.

 


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