Por que o dólar já não é mais o queridinho para reservas soberanas de muitos países?



Durante décadas, o dólar americano ocupou um lugar de honra nos cofres dos bancos centrais ao redor do mundo. Era o ativo incontestável, o porto seguro em tempos de turbulência, a moeda que todos queriam ter em suas reservas. No entanto, os ventos estão mudando. Pela primeira vez em anos, uma parcela significativa de gestores de reservas soberanas sinaliza que pretende reduzir sua exposição à moeda americana no longo prazo, um movimento que revela menos uma hostilidade declarada e mais uma busca pragmática por diversificação em um mundo cada vez mais fragmentado .

Os dados mais recentes do Fundo Monetário Internacional ajudam a dimensionar essa transformação. A participação do dólar nas reservas cambiais globais, que já foi superior a 70% no início do século, oscila hoje em torno de 57% . Uma queda de mais de uma década que, embora pareça lenta, esconde uma mudança profunda na forma como os gestores de reservas enxergam o risco. Pesquisas recentes indicam que 79% dos bancos centrais acreditam que o sistema monetário internacional está em transição para uma estrutura multipolar, onde nenhuma moeda detém a hegemonia absoluta .

A explicação para esse movimento não reside apenas em questões econômicas tradicionais, como taxas de juros ou inflação. O que realmente mudou o cálculo dos gestores de reservas foi a percepção de que o dólar deixou de ser um ativo politicamente neutro. O congelamento de reservas russas após a invasão da Ucrânia, em 2022, enviou um sinal inequívoco: manter reservas em dólar significa estar exposto a decisões políticas de Washington que podem, a qualquer momento, transformar um ativo seguro em um instrumento de pressão geopolítica . Esse episódio funcionou como um catalisador silencioso, levando países do Sul Global a repensar a composição de seus portfólios com uma urgência antes inexistente.

Diante desse cenário, o ouro emergiu como o grande beneficiário. Não porque ofereça rendimento ou liquidez comparável à dos títulos do Tesouro americano, mas precisamente porque está fora do sistema de emissão de dívida soberana. O metal precioso não carrega o risco de ser bloqueado, confiscado ou politicamente condicionado . Prova disso é que os bancos centrais, especialmente os de economias emergentes, têm acumulado ouro em ritmo recorde. A Polônia, a China e a Turquia lideraram compras expressivas nos últimos anos, e pesquisas indicam que uma parcela crescente de instituições pretende continuar aumentando suas posições no metal . O ouro tornou-se, nas palavras de um relatório recente, o centro da estratégia de reservas para proteção contra riscos geopolíticos .

É importante, contudo, não confundir diversificação com abandono. O dólar continua sendo o ativo mais líquido, mais negociado e mais profundamente ancorado no sistema financeiro global. Nenhuma outra moeda oferece a mesma combinação de escala, credibilidade institucional e capacidade de funcionar como colateral em momentos de estresse . O euro, apesar de seu peso institucional, carece de um mercado unificado de títulos seguros que rivalize com os Treasuries. O yuan chinês, por sua vez, esbarra em controles de capital e preocupações com transparência que limitam seu apelo como âncora de reservas . Mesmo gestores que expressam descontentamento com o dólar reconhecem que não há, no horizonte próximo, um substituto à altura.

A verdadeira transformação em curso não é a substituição de uma moeda por outra, mas a construção gradual de um sistema mais plural. Iniciativas como o desenvolvimento de sistemas de pagamento alternativos, o uso crescente de moedas locais no comércio bilateral e a expansão de plataformas como o CIPS chinês apontam para um mundo em que o dólar continuará relevante, mas dividirá espaço com outras opções . Trata-se de uma transição silenciosa, feita de acordos técnicos e arranjos bilaterais, que avança menos por gestos espetaculares e mais pela soma de decisões cotidianas de gestores de reservas que buscam reduzir vulnerabilidades.

Para o Brasil e para outras economias emergentes, esse movimento carrega implicações práticas. A dependência excessiva de uma única moeda expõe países a choques externos que fogem ao seu controle, sejam eles movimentos bruscos na política monetária americana ou sanções de natureza geopolítica. Diversificar reservas não significa romper com o sistema financeiro internacional, mas sim construir margens de segurança em um ambiente onde a previsibilidade já não é garantida . O dólar ainda é o queridinho de muitos, mas já não é mais o único. E essa constatação, por si só, representa uma mudança profunda na arquitetura monetária global.

 


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