O que o presidente reeleito do Brasil pode fazer agora para acalmar o mercado enquanto não faz o ajuste fiscal?
A reeleição do presidente Lula em outubro de 2026 desencadeou
uma das reações mais severas do mercado financeiro brasileiro em décadas. O
Ibovespa acionou o circuit breaker e recuou quase 14% no primeiro pregão após o
resultado, enquanto o dólar disparou 8,36%, na maior valorização diária em 23
anos. O mercado não reagiu à vitória em si, mas à ausência de sinais claros
sobre como o governo pretende lidar com o desequilíbrio fiscal que se acumula.
A pergunta que se impõe, portanto, é o que o presidente reeleito pode fazer no
curto prazo — antes de apresentar um pacote completo de ajuste — para reduzir a
incerteza e restaurar minimamente a confiança dos investidores.
O primeiro e mais imediato sinal diz respeito à formação da
equipe econômica. A escolha do ministro da Fazenda funciona como um termômetro
da seriedade com que o governo trata a questão fiscal. Economistas ouvidos por
veículos especializados convergem que um nome com credibilidade e histórico de
compromisso com a responsabilidade fiscal pode alterar significativamente a
percepção de risco. Roberto Troster, ex-economista-chefe da Febraban, resume
bem: “Um bom comandante nessa área, um bom time, pode mudar o jogo”. No
entanto, a mesma avaliação traz uma ressalva crucial: nomes de qualidade
ajudam, mas não substituem medidas concretas. Como sintetizou Carlos Braga,
ex-diretor do Banco Mundial, “visão sem implementação é alucinação” .
A segunda sinalização possível é o compromisso público e
verificável com o cumprimento do arcabouço fiscal vigente, sem recorrer a
artifícios contábeis. Henrique Meirelles, ex-ministro da Fazenda e
ex-presidente do Banco Central, foi direto ao afirmar que “cumprir o arcabouço
sem truque, sem colocar despesas fora do arcabouço” já representaria um grande
progresso para estabilizar as expectativas. O mercado precifica não apenas o
resultado formal, mas a credibilidade da execução. A dissociação entre meta e
esforço efetivo é justamente o que tem alimentado o prêmio de risco. Um
anúncio claro de que o governo não pretende ampliar o espaço de gastos por meio
de manobras fiscais teria efeito imediato sobre a curva de juros.
A terceira frente é a mais delicada, porque envolve os
compromissos de campanha. O UBS estimou em cerca de R$ 300 bilhões o custo dos
gastos prometidos durante a eleição, e o mercado aguarda para ver como o
governo conciliará essas promessas com qualquer esforço de contenção. A
sinalização possível aqui não é abandonar os programas sociais — o presidente
já deixou claro que nenhum será extinto —, mas apresentar um cronograma crível
para escalonar ou compensar essas despesas. A ausência de qualquer indicação
nesse sentido mantém o mercado em compasso de espera, e o silêncio, como
observam analistas, começa a pesar tanto quanto o resultado eleitoral em si.
A quarta medida disponível é a abertura de um canal de
diálogo institucional com o Congresso. O governo reeleito enfrenta um
Legislativo mais fragmentado e menos alinhado ao Planalto, e a capacidade de
aprovar medidas de ajuste será determinante para a credibilidade de qualquer
plano. Sinalizar disposição para negociar e construir maioria em torno de
reformas estruturais — mesmo que elas não sejam implementadas imediatamente —
reduziria a percepção de paralisia. A Troon Capital observa que a volatilidade
inicial não reflete necessariamente rejeição ao governo, mas incerteza sobre a
capacidade de aprovação de medidas no Congresso. Um gesto concreto nessa
direção, como a indicação de interlocutores respeitados para negociar com os
parlamentares, teria efeito paliativo.
Por fim, há um elemento de comunicação que não deve ser
subestimado. O mercado trabalha com expectativas, e a clareza sobre o
diagnóstico é parte da solução. O governo não precisa apresentar um ajuste
completo em novembro de 2026, mas precisa demonstrar que compreende a gravidade
da trajetória da dívida — que já supera 80% do PIB — e que está disposto a
enfrentá-la. A declaração do ministro da Secretaria-Geral, Guilherme Boulos,
rejeitando qualquer ajuste baseado em cortes sociais, foi interpretada como
ruído e pressionou o dólar durante o pregão. A ausência de declarações
contraditórias e a coordenação do discurso oficial são, em si, um sinal de
maturidade.
Nenhuma dessas medidas substitui o ajuste fiscal que se anuncia como inevitável para 2027. Mas, no intervalo entre a reeleição e a apresentação de um plano estruturado, elas funcionam como âncoras parciais. O mercado não espera que o governo resolva o problema fiscal em semanas. Espera, isso sim, que sinalize com clareza que reconhece a existência do problema e que está disposto a enfrentá-lo com seriedade. A diferença entre uma transição turbulenta e uma crise prolongada pode estar justamente na velocidade e na qualidade desses primeiros sinais.

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